75 anos depois, a CUF Infante Santo vai fechar portas. Reportagem no novo hospital privado de Lisboa – Observador

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A saída definitiva do SNS dá-se em 1995. Foi chamado pelo administrador, que lhe perguntou o que seria preciso para o fazer mudar-se definitivamente para a Infante Santo: “Em três folhas A4 desenhei um serviço de Otorrino. Um serviço que teria de ter — na altura éramos três — pelo menos mais seis médicos, espaço físico e teria que ter qualidade suficiente para ter idoneidade pela Ordem dos Médicos, para um dia mais tarde despertar a atenção das universidades e ter alunos”.

Duas semanas depois, para espanto de João Paço, acederam ao seu pedido e o especialista começou a trabalhar exclusivamente no hospital onde ele próprio tinha nascido em 1948, três anos após a inauguração. Apesar de o hospital ter sido projetado para dar resposta aos 80 mil colaboradores e familiares da Companhia União Fabril (CUF), explica, “logo desde o início teve também uma vertente privada”.

“Houve desde logo uma grande preocupação com a qualidade, com a inovação e isso transparece ao longo da história da CUF”, contextualiza João Paço ao Observador. Agora, o foco na inovação volta a estar presente na CUF Tejo. Assente num edifício criado de raiz, com uma área superior a 75 mil metros quadrados, o hospital vai contar com mais de 1.700 profissionais, 178 gabinetes de consulta e exames, 213 camas em nove alas de Internamento, 14 camas de Cuidados Intensivos e 10 salas de Bloco Operatório, incluindo uma sala híbrida — que permite a utilização de exames de imagem durante os procedimentos —, uma de cirurgia robótica e outra “com espectatório”, onde os profissionais vão poder assistir às cirurgias dos colegas, como nos habituámos a ver nas séries americanas sobre hospitais.

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A CUF Tejo, que resulta de um investimento superior a 170 milhões de euros, irá contar ainda com Urgência 24 horas para adultos, uma Urgência pediátrica, que funcionará de segunda-feira a sábado, das 8h30 às 21h, dois hospitais de dia — um oncológico e outro médico — e um serviço de Imagiologia. Este último é um dos serviços que irá começar a receber doentes já na segunda-feira. Por isso mesmo, à passagem do Observador, os técnicos de diagnóstico vão ultimando os últimos detalhes, de volta dos aparelhos, que, tal como 95% dos equipamentos da unidade, são novos. “Estão a testar as potencialidades clínicas do equipamento”, explica Marco Costa, técnico coordenador de Radiologia, com um berbequim em som de fundo.

Numa das máquinas de ressonância magnética está um voluntário deitado enquanto, do outro lado do vidro, três técnicas se inclinam sobre o ecrã de computador a analisar as imagens recolhidas. A escassos metros, mais um grupo de técnicos de olhos pregados nas imagens do computador. Noutra sala ao lado está um grupo ainda maior, mas de volta das imagens de uma das tomografias computorizadas (TAC). Este aparelho, que, de acordo com o técnico coordenador, é único em Portugal, consegue ter menos 80% de radiação e, em alguns exames, chega a aproximar-se dos níveis de radiação de um raio-X. “Conseguimos fazer [uma imagem] de um corpo inteiro entre 0,3 e 0,9 segundos”, indica Marco Costa, acrescentando que, por norma, o tempo numa outra máquina varia entre três a 10 segundos.

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Outro equipamento único em Portugal encontra-se na Otorrinolaringologia e chama-se “posturografia dinâmica computorizada”. Este aparelho utiliza realidade virtual para a reabilitação de doentes com problemas de vertigens e com alterações no equilíbrio. O paciente fica preso numa espécie de arnês e coloca os pés numa pequena plataforma que se mexe e produz movimentos repentinos, tanto para a frente como para trás. “A novidade é a parte virtual, em que são projetadas imagens para simular cenários em que o doente é obrigado a fazer certos movimentos“, explica o técnico de Otorrinolaringologia Francisco Paço ao Observador, acrescentando que são feitas cinco sessões, em dias alternados, e o doente é depois reavaliado.

Um dos cenários simula um corredor de supermercado, em que o doente tem de se inclinar para ir “buscar às prateleiras” os produtos, o que permite testar a sua capacidade de equilíbrio. Outro cenário é o de um avião em movimento. O doente tem de “dirigir” o avião para os alvos, que são círculos que vão aparecendo na imagem. Caso o paciente tenha problemas de equilíbrio, não consegue chegar exatamente aos alvos.

A consulta externa também começará a receber doentes já na segunda-feira. Por enquanto, os três pisos das consultas, com varandas e vidros amplos para permitir a entrada de luz natural, ainda não estão acabados e há caixas e plásticos encostados à parede. As salas que já estão prontas para a inauguração, a maioria com cadeiras, armários, secretária e marquesa arrumados nos sítios certos, distinguem-se das demais pelo aviso que têm nas portas: “Limpeza final concluída. Não entrar sem proteção de calçado”. Nas salas de espera, viradas para o Palácio das Necessidades, as cadeiras ainda estão cobertas de plástico, tal como os ecrãs instalados junto ao teto. Destapadas, só mesmo as máquinas de vending e de café e que já estão operacionais.

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Uma das características do hospital, destacadas pelo diretor de clínico, é a sua organização por 14 centros clínicos, onde estão integradas 24 especialidades: Centro de Cirurgia e Patologia Digestiva, Centro da Criança e Adolescente, Centro da Mulher, Centro de Dermatologia, Cirurgia Plástica e Estética, Cento de Neurociências, Centro de Oncologia, Centro do Pulmão, entre outros.

De acordo com João Paço, esta organização, com vários centros no mesmo piso, vai facilitar a abordagem multidisciplinar dos casos. Algo que não acontecia com tanta facilidade na CUF Infante Santo, uma vez que o hospital estava dividido em dois pólos: “Por exemplo, a Neurocirurgia deve estar perto da Neurologia, que deve estar perto dos estudos do sono e da eletromiografia. O edifício novo da CUF Tejo, a sua arquitetura e seu formato, está feito de maneira a que estes casamentos sejam feitos com muita facilidade”.

Caberá ao hospital, e não ao doente, fazer a ponte entre as várias especialidades que precisam de estar envolvidas no tratamento de uma patologia: “Eu vejo um doente que tem uma paralisia facial, ele tem de ter um tratamento de Otorrino, porque o nervo facial passa pelo ouvido. Obrigatoriamente este doente deve ter uma consulta de Neurologia, deve ter uma consulta de [Cirurgia] Plástica para a reconstrução face e uma consulta de Psicologia, eventualmente para equilibrá-lo. Em vez de ser a pessoa a bater em várias capelinhas, nós é que batemos por ela.”

Além desta abordagem multidisciplinar, a CUF Tejo designa-se como um hospital “desenhado para as doenças do futuro”, centrado tanto no doente como nos familiares e nos cuidadores. João Paço destaca três patologias, que estão associadas ao envelhecimento da população: os “problemas do coração”, as doenças “neurodegenerativas e os problemas oncológicos”, que muitas vezes implicam o envolvimento de várias especialidades. “São basicamente as três grandes coisas que afligem a população portuguesa, essas é que são as doenças do futuro. Nós conseguimos prevenir algumas destas doenças, através do Centro de Medicina e prevenção, mas há outras que temos de tratar”, sublinha o diretor clínico.

E é particularmente nestas patologias que surge o foco na família: “Se tiver alguém com Alzheimer, tem de tratar o doente e tem de tratar a família também. É este o enfoque com a família e os cuidadores”, explica João Paço, realçando que será criada a figura da enfermeira “Navigator”, isto é, enfermeiras que irão fazer o seguimento do doente, não só em termos clínicos, facilitando o seu acompanhamento através das várias especialidades, mas também quando ele for para casa, e que fará igualmente um acompanhamento da família.

O novo hospital assume-se ainda como um “Hospital Escola”. Atualmente, a CUF Infante Santo tem idoneidade para formar internos das especialidades de Otorrinolaringologia, Oncologia e Radiologia. O diretor clínico espera que o hospital, no próximo ano, se candidate a ter mais três especialidades, uma delas Anestesiologia. “Faz parte da génese do médico ensinar”, diz João Paço, considerando que o setor privado devia estar mais envolvido na formação médica. “Não quer dizer que os hospitais privados tenham tudo, mas há áreas que merecem, porque há tanta cirurgia tão boa, há tanta especialidade tão boa, que merecem ter ensino. Às vezes não digo que seja um internato todo, mas ter parte — três anos, quatro anos —, depois [o interno] volta à casa mãe.”



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