“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes”

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Lima & Santana Propaganda, sua agência de publicidade e propaganda em Santos

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“Parece que os negros não têm passado, presente e futuro no Brasil. Parece que sua história começou com a escravidão, sendo o antes e o depois dela propositalmente desconhecidos”.

Quem afirma é o antropólogo Kabengele Munanga, professor do Centro de Estudos Africanos da Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências e Humanidades da USP. Não à toa, o Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro, é baseado na história envolta em mistérios e lendas de Zumbi dos Palmares. Quando nos deparamos com as histórias contada nos livros, percebemos que a norma sempre foi pálida e europeia. Imposta como a certa e heterossexual. Polida e cisgênera. Tudo que desviasse não era mencionado e deixado de lado, a revelia do ostracismo.

O preconceito de cor ainda existe, e uma das formas de combatê-lo é discutindo e expondo as mazelas enraizadas no dia a dia da sociedade brasileira. Zumbi, líder de um dos maiores quilombos do Brasil, o de Palmares, enfrentou as investidas da Coroa portuguesa em defesa dos escravizados que fugiam do trabalho desumano e das torturas vigentes nas fazendas da época.

Nos últimos livros que você leu, quantos personagens eram descritas como negras? Quantas dessas autoras ou autores dedicaram suas palavras a descrever uma pessoa de pele escura, retinta? Com narizes largos e cabelos altos e crespos? Quantos filmes a imagem da negritude está vinculada a estereótipos pejorativos, que de alguma forma faça alusão a criminalidade ou servidão? Desses livros, quantos foram escritos por mulheres? E dos filmes, quantos foram dirigidos por mulheres pretas? Maria Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Maria Firmina, Dandara, Adelia Sampaio, Camila de Moraes, Day Rodrigues ….

O panorama histórico do Brasil comprometeu a ascensão econômica, política e social de pessoas negras. A imagem de pessoas negras atreladas a pessoas preguiçosa, violentas ou criminosas ronda o imaginário comum e popular. Por conta do dia da consciência negra tornou-se obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileiras nas escolas, por meio de projetos e ações que tratem de temas, como: a luta dos negros no Brasil e seu papel na sociedade, cultura afro-brasileira, identificação de etnias, discriminação, inserção do negro no mercado de trabalho etc. Não apenas para o enfrentamento do racismo, mas também para conhecimento de culturas oriundas da diáspora negra e sua assimilação cultural aqui no Brasil.

A exemplo da Estação Primeira de Magueira, o samba-enredo vencedor do carnaval de 2020, nos trouxe em seus destaques nomes invisibilizados dos livros didáticos. De forma lúdica suscitou inúmeros questionamentos em torno das desigualdades sociais e históricas que esse país com dimensões continentais possui no maior evento popular do mundo.

“Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato”

Lutando bravamente, através da música, por mudanças decisivas nas estruturas sociais. No ano retrasado o enredo carnavalesco do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, assim como o desfile e as alegorias na passarela, traziam severas críticas à política nacional e às atitudes dos governantes em suprimir direitos de trabalhadores e de cidadãos brasileiros, evidenciando a possibilidade da associação de tal procedimento à ideia de que as autoridades governamentais estariam reduzindo os integrantes de setores da sociedade à suposta condição de escravizados. Com a internet temos acompanhado mobilizações contra o genocídio da população negra.

As hashtags #BlackLivesMatter ou #VidasNegrasImportam tem levantado a discussão sobre o tratamento de pessoas negras diante do braço truculento do Estado e as sequelas que o racismo nos ocasiona até hoje.

Portanto, convido você, a se tornar autor dessa história e não me colocar mais ou pessoas iguais a mim ou com marcadores parecidos com os meus na posição de subalternes, silenciades ou interrompides. Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes, como já diria o poeta Emicida.



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