“Um repórter que não aceitava off”, por Paula Scarpin

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Por Paula Scarpin, da Revista Piauí – Quando o telefone tocou hoje de manhã e eu vi que era a Cristina Tardáguila, a minha espinha gelou. O Mak. Porque quase ninguém sai ligando do nada hoje em dia, tinha que ser uma coisa importante. E também porque, de alguma forma ou de outra, a gente estava temendo a chegada deste dia há pelo menos doze anos. A primeira reação foi montar um grupo de WhatsApp, batizado de “Piauí Velha Guarda”, com aquele primeiro elenco de piauienses do baixo clero: Roberto Kaz, Clara Becker, Cristina Tardáguila, Raquel Zangrandi, Consuelo Dieguez, Daniela Pinheiro, Raul Loureiro, Claudia Warrak, Paula Cardoso. E estamos há cinco horas compartilhando histórias do nosso amigo Luiz Maklouf Carvalho, que morreu hoje, vítima de um câncer no pulmão. A maior parte das histórias é impublicável. O Mak, como o chamávamos, era o rei deste baixo clero da primeira redação da piauí, situada no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. E se comportava como tal.

 

Mas antes, uma ressalva: na verdade, falar em “baixo clero” é uma piada com uma lista de nomes dessas, mas ali a gente diferenciava só quem era “cadeira preta” – os editores – e todo o resto da redação, os “cadeiras verdes”. Eu tinha acabado de chegar de São Paulo depois de ganhar um concurso de estágio, e fiquei intimidada por dividir espaço com nomes que, até outro dia, eram parte da bibliografia das aulas da faculdade. Mas não durou muito tempo. Porque acontecia uma coisa muito esquisita naquele grupo dos “cadeiras verdes”: todo mundo se tratava de igual para igual. O que era especialmente esquisito porque alguns de nós mal tínhamos nos formado – que era o meu caso, o de Cristina Tardáguila, o de Roberto Kaz e o de Clara Becker. Nós, com certeza, não merecíamos toda aquela confiança. Mas soubemos (ou espero que tenhamos sabido) tirar proveito disso.

No caso do Mak, esse respeito – e talvez nem seja exagero dizer “deferência” – era ainda mais esquisito, porque ele era o mais velho de nós. Tinha a idade do meu pai, precisamente. E não eram poucas as vezes em que ele nos pedia para ler algum texto, de modo a dar “um toque desses de jornalismo literário”, que ele dizia estar teimando para aprender depois de décadas de redação de jornal. A cada sugestão, ele dizia “vocês são craques”, um dos seus bordões. Nós. Craques. Uma generosidade completamente irrazoável. Por sorte, isso abria brecha para a gente também pedir ajuda.

Foram vários os episódios, mas conto um:

Uma das minhas primeiras reportagens na piauí foi sobre o concurso de Miss Brasil de 2008. Era uma pauta fria, uma matéria que pretendia reconstituir a história dos concursos de miss. De repente, a apuração deu uma reviravolta que demandava um pouco mais de jornalismo investigativo do que eu me sentia apta a encarar: um erro na cirurgia plástica da Miss Rio Grande do Sul quase a deixara de fora do concurso. A história era escabrosa, com o “missólogo” entrando na sala de cirurgia para palpitar, o cirurgião com vários processos nas costas. Todo mundo me deu entrevista, menos a moça. Era compreensível que alguém que vivia da própria beleza não se sentisse à vontade pra falar sobre um problema estético no próprio rosto. Mas, depois de muito trabalho, ela topou. E a direção da revista concordou em me mandar para Porto Alegre para fazer a entrevista. Eu já estava no táxi a caminho da casa da miss, quando ela me manda um e-mail dizendo que tinha desistido. Não pensei duas vezes: liguei para o Mak. Só ele poderia me dizer o que fazer. Com a maior clareza do mundo, ele ordenou: “Você vai ligar para ela e dizer que já está a caminho e que ela não pode fazer a indelicadeza de não te receber pelo menos para te ouvir. Se ela te receber, tá feito. Porque você vai dizer pra ela: ‘Essa história já não pertence mais a você, todo mundo fala dela. O seu agente falou, o médico que fez essa barbeiragem no seu rosto falou. O que eu estou te oferecendo é uma chance de contar a sua versão da sua própria história.’” Eu fiquei de queixo caído com o misto de malandragem e ética da profissão do conselho. Era Maklouf puro ali. Obviamente deu certo. E, quando a revista saiu, com a matéria na capa, o Mak fez questão de tirar uma foto minha na banca de jornal.

Naquele mesmo ano, o Mak descobriu que tinha um tumor enorme no palato mole, o céu da boca. “Do tamanho de uma laranja”, ele disse, ao telefone. Naquela noite, sem ele, a gente encheu a cara e chorou muito, precocemente, confiando no primeiro diagnóstico médico de que ele teria “uns três meses” de vida. Mas o câncer não conhecia o Maklouf. Ele não tinha medo nenhum, mandava frases do tipo “vou enfrentar que nem macho”, em um estilo que eu não perdoaria em mais ninguém. Mak, nosso machista favorito. E enfrentou, por doze anos – tempo em que ele publicou muito, alguns livros e reportagens não só na piauí, mas na Época e no Estadão, onde ele esteve por último. Ele se orgulhava de não ter passado mais de três anos sem ter sido demitido de um emprego – mas eu acho que este dado não passaria pela checagem.

O Mak era repórter cem por cento, “nosso cão farejador”, apelidou a Raquel Zangrandi, sempre certeira. Ele se irritava com o fato de que, no jornalismo, subir na carreira significava virar editor. “São profissões diferentes, com habilidades diferentes”, dizia, com razão. O tesão dele estava em apurar, em conseguir as informações com as regras dele, sem off e sem cultivar fontes. Inventar a roda a cada reportagem. Mas é verdade que o texto do Mak melhorou muito depois da passagem pela piauí. E é mais verdade ainda que muito do rigor das reportagens da piauí carrega o DNA do Maklouf, que impôs um patamar elevado de apuração desde os primeiros números da revista. Hoje vou passar o dia relendo seus perfis da Dilma, a saga do Supremo Tribunal Federal, o perfil do rapper Gog, e tudo o que tiver dele aqui no site da revista. Recomendo o mesmo a vocês.



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