Vogue Repórter: “Quando acordei no hospital após o explante de silicone, acordei também para a vida” – Vogue

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Thai de Melo Brufem (Foto: Reprodução/Instagram)

Sou a Thai, tenho 35, anos 90 com muito orgulho. Jornalista por formação que sempre gostou de falar e de detestar matemática, então o teste vocacional atrás da caixinha de Toddynho não poderia ter escolhido outra opção para mim. Mesmo que falar sempre tenha sido um esporte, pensei muito antes de expor uma decisão minha. E já já explico o porquê (espero que essa técnica de suspense para prender o leitor até o final do texto funcione).

Atualmente trabalho como escritora de stories no Instagram – também conhecida como influencer – escrevendo stories da minha vida, das minhas experiências como mãe, das minhas percepções do dia a dia e do meu relacionamento com o mundo e comigo. Compartilhar foi a forma que encontrei de me curar, através das esquetes e dos stories que escrevo e que me fazem questionar e transformar as situações que vivi e ainda vivo. Mas eu não contava que essas histórias fossem chegar a tantas pessoas.

Estar nesse lugar falando de forma pública para pessoas que não conheço é algo muito recente e não programado na minha vida e esse é um dos motivos por ter pensando demais antes de falar sobre meu explante de silicone, e olha que já falei de assuntos como anorexia e bulimia, temas que infelizmente vivenciei por grande parte da minha vida. O corpo foi foco da minha atenção por muitos anos, nasci com uma genética magra e desde a adolescência tive a consciência de que não era o corpo esperado pelos meninos da minha idade, dando início ao meu processo de insatisfação. Tomei remédio para engordar, o que desregulou todo o funcionamento do meu corpo, e quando enfim engordei comecei a namorar um menino que queria a minha versão muito magra que eu já não tinha, então lá fui eu conviver com a anorexia e bulimia por anos. Deixei meu corpo à mercê do outro desde o primeiro dia que tive consciência dele. Eu tinha consciência de tudo o que outro queria e esperava de mim. Com o silicone, não foi diferente.

Como Thai de Melo Bufrem se tornou sensação na rede social? (Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Esse era meu sonho, que realizei depois de ter meus dois filhos, aos 25 anos. Após a amamentação, meu peito ficou com um excesso de pele e achei que a ocasião era “perfeita” para tomar aquela decisão, apenas seis meses depois de ter meu segundo filho. Mas a mesma menina que sonhou em colocar silicone, agora era uma mãe que só começou a se dar conta de que sua decisão envolvia anestesia e internação no hospital quando nele já estava. Ali, comecei a perceber que estava tomando as decisões na minha vida de forma anestesiada, sem ouvir a única opinião que deveria ser levada em consideração sobre o meu corpo: a minha. Quando acordei da anestesia, senti uma dor absurda no pós-operatório. Tive parto normal dos meus dois filhos e nenhuma dor foi parecida. Me olhei no espelho e de imediato não curti o que vi. Me senti desconfortável no espelho e na vida. Mas segui por 10 anos assim, com algumas dores esporádicas, que eram analisadas, mas não eram ligadas a nada pelos médicos.

Foi então que passei a me perguntar: “por que coloquei bolas em mim? Bolas que em algum momento precisarão ser trocadas e, quando trocadas, precisarei despender novamente do dinheiro da cirurgia, de acompanhamento e de uma sala de operação. O medo de voltar para uma sala de cirurgia era tão grande quanto o de não saber o que ia acontecer com meu peito caso eu tirasse o silicone. Pesquisei muito sobre o tema, e encontrei poucas informações, poucos relatos em que eu me visse de alguma forma. Há três anos, por sorte, encontrei uma amiga que, aos 50 anos, resolveu tirar a prótese e fazer a mamoplastia e compartilhou o resultado e o processo comigo. Quando vi e ouvi, tive a certeza que era aquilo que queria para mim. Peguei o contato do médico, conversei com ele, ele me avaliou, avaliamos todas as possibilidades, as expectativas, passei três anos maturando a ideia e planejando fazer a cirurgia.

Até que, com dez anos de prótese, tempo recomendado para avaliação e/ou troca, eu retirei a prótese e refiz a mamoplastia para retirar o excesso de pele que já tinha quando as coloquei.

Pensei muito antes de compartilhar isso. Infelizmente, vivemos hoje em uma sociedade extremista, que não avalia o indivíduo. Não me vejo no direito de impor nada a ninguém. Tudo o que nós mulheres não estamos precisando é de mais uma imposição. “Coloque silicone! Tire silicone!”.

Não me vejo jamais no direito de impor nada a ninguém, mas vi que seria importante relatar a minha experiência, da minha forma, com a minha narrativa. Pensei que, assim como eu, pudessem haver mulheres com carência de relatos sobre o tema. Quando colocamos no Google: ‘implante de silicone’ – temos acesso a todas as informações possíveis, e acho que temos que ter todas as informações possíveis sobre a extração também, para que nós possamos avaliar e tomar a nossa decisão de forma consciente. Quanto mais informação, mais podemos formar a nossa própria opinião.

Não estou defendendo a retirada do silicone, não sou contra cirurgias plásticas ou procedimentos estéticos, muito pelo contrário. Mas por não ter ponderado muito antes de decidir fazer e, por isso, me arrepender, decidi dividir e, quem sabe, ajudar alguém que esteja com o mesmo sentimento que eu já senti.

Eu só desejo que as mulheres possam ter informações suficientes para tomarem suas próprias decisões, sejam elas quais forem. Desejo que se sintam em paz como eu me senti, não só por ter explantado, mas por ter acordado finalmente para  viver o meu sonho e não o sonho que o outro espera que eu sonhe. Só nós sabemos o que realmente nos faz sentido e, nesse momento, nada me faz mais sentido do que Thai explantada. Quando acordei no hospital após o explante, acordei também para a vida. Para a minha vida e para o que me faz sentido, e quem é feliz deseja que os outros também sejam felizes com suas próprias escolhas.



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